“Parece que ainda ontem era verão.” “Como é que já estamos em setembro?” “Juro que janeiro foi há duas semanas.”
Se alguma destas frases já passou pela tua cabeça, não estás sozinho. À medida que envelhecemos, é comum termos a sensação de que o tempo passa cada vez mais depressa. Mas será que os dias estão mesmo a passar mais rápido?
A resposta curta é: não. As horas continuam a ter 60 minutos e os dias continuam a ter 24 horas. O que muda é a forma como o nosso cérebro perceciona e recorda a passagem do tempo.
Quando somos crianças, um ano parece enorme
Pensa no que significa um ano quando tens 8 anos. É uma parte significativa da tua vida e corresponde a uma grande quantidade de tempo relativamente a tudo aquilo que já viveste. Aos 40, pelo contrário, um ano representa uma proporção muito menor da nossa experiência.
Mas existe outro fator importante: a novidade.
Quando somos crianças, grande parte daquilo que vivemos é novidade. Os primeiros dias de escola, uma viagem, uma nova amizade ou um concerto são experiências que captam a nossa atenção e deixam marcas mais distintas na memória.
Na idade adulta, muitas das nossas semanas começam a parecer-se umas com as outras. Entre trabalho, responsabilidades e rotinas, existem menos acontecimentos diferentes para o nosso cérebro usar como referências quando olhamos para trás. E é assim que podemos chegar ao fim de um mês com a sensação de que acabou de começar.
É por isso que as férias parecem durar mais?
Aqui está o curioso: durante uma experiência nova, o tempo pode parecer mais lento.
Uma viagem a um lugar desconhecido, por exemplo, envolve novas imagens, sons, pessoas, cheiros e situações. Estamos mais atentos ao que acontece à nossa volta e registamos mais informação.
Quando recordamos essa experiência mais tarde, ela pode parecer ter sido muito mais longa do que um período passado em casa.
Ou seja, o tempo pode parecer passar depressa enquanto o estamos a viver, mas parecer mais longo quando olhamos para trás.
E o que é que isto tem a ver com a nossa saúde mental?
Mais do que podemos imaginar.
Quando entramos num ciclo marcado por rotina, cansaço e funcionamento em piloto automático, podemos começar a sentir que os dias se tornam todos iguais. Isto não significa, por si só, que exista um problema de saúde mental. A rotina pode ser importante para o nosso equilíbrio.
No entanto, quando este funcionamento vem acompanhado de apatia, perda de interesse, isolamento ou dificuldade em encontrar prazer nas coisas, pode ser importante parar e perceber o que está a acontecer.
Cuidar da saúde mental também passa por conseguir estar presente na própria vida, reconhecer aquilo de que precisamos e criar espaço para atividades, relações e experiências que nos fazem sentido.
Talvez não consigamos abrandar o tempo.
Não precisamos de transformar cada dia numa aventura nem de preencher a agenda com experiências novas. Pequenas mudanças podem ser suficientes para quebrar a rotina e criar momentos diferentes: experimentar um lugar novo, aprender algo, fazer um percurso diferente ou simplesmente reservar tempo para algo de que gostamos.
As rotinas dão-nos estrutura e segurança, mas, de vez em quando, sair do piloto automático pode ajudar-nos a prestar mais atenção ao momento que estamos realmente a viver.
Porque talvez não consigamos fazer o tempo passar mais devagar. Mas podemos fazer com que mais momentos sejam verdadeiramente vividos.
Psicóloga Mariana Dias Pereira
Cédula profissional nº 26374 da ordem dos psicólogos