Alguma sensibilidade nos primeiros dias de amamentação é normal. Dor intensa não é. Mamilos com fissuras, sangue no mamilo, dor que dura a mamada inteira: quase sempre são sinal de que a pega ou o posicionamento precisam de um pequeno ajuste, e isso tem solução. Em Portugal, mais de 90% das mães começam a amamentar, mas quase metade desiste ainda no primeiro mês de vida do bebé. O momento mais difícil costuma ser logo na primeira ou segunda semana, exatamente quando a dor e o medo de “não ter leite suficiente” pesam mais. A consulta de enfermagem de amamentação existe para que essa dor não seja o motivo que faz uma mãe desistir de algo que queria continuar.
Nos livros e nos vídeos das redes sociais, amamentar parece um gesto simples, quase instintivo. Depois, em casa, sozinha às três da manhã, com o mamilo em fogo e o bebé a chorar, vem a pergunta que tantas mães fazem em silêncio, sem coragem de a dizer em voz alta: será que sou eu que não sei fazer isto?
Não é. Quase sempre, não é falta de capacidade. É falta de acompanhamento no momento certo, por alguém que se sente ao seu lado e olhe com calma para o que está a acontecer.
Amamentar dói mesmo, ou há algo que precisa de atenção?
É normal sentir algum desconforto nos primeiros dias, sobretudo no início de cada mamada, enquanto o corpo se vai adaptando. Já não é normal sentir dor que não passa durante toda a mamada, ter os mamilos com fissuras ou pequenas feridas, temer a mamada seguinte por antecipar a dor, ou sentir que o bebé nunca fica satisfeito, por mais tempo que mame.
Nada disto significa que o seu corpo falhou. Significa, com muita frequência, que a pega ou a posição precisam de ser ajustadas, e isso costuma resolver-se com orientação certa, muitas vezes já na primeira consulta.
O mito do “leite fraco”
Poucas frases fazem tanto mal a uma mãe como ouvir que o seu leite é fraco. Clinicamente, não existe leite materno fraco. A composição do leite ajusta-se às necessidades do bebé ao longo do tempo, isto é, vai alterando sim ao longo do crescimento do bebé conforme as suas necessidades. O que existe, muitas vezes, é uma pega que ainda não está eficiente, e que impede o bebé de retirar bem o leite que já ali está, ou é apenas a sensação de “pouco leite”, tão comum e tão enganadora nos primeiros dias. Confundir isto com incapacidade da mãe é uma das razões que mais leva a introduzir leite artificial sem necessidade real, e um dos pesos emocionais mais pesados que uma mãe recente carrega, muitas vezes sozinha.
O que acontece numa consulta de enfermagem de amamentação?
A consulta começa por ouvir. Como está a viver este momento, que dúvidas e receios traz consigo, o que já tentou, o que sentiu. Só depois, com calma e sem pressa, se observa a pega e a posição do bebé durante a mamada, o estado dos mamilos e da mama, os sinais de que o bebé está de facto a receber leite suficiente (as fraldas, o comportamento, o peso), a frequência e a duração das mamadas, e tudo o que possa estar a dificultar este processo, seja cansaço, dor, ansiedade ou ideias que a família foi deixando cair, com boa intenção mas sem base real.
Sempre que é preciso, ajusta-se a pega ali mesmo, mostram-se posições alternativas, e constrói-se, junto com a mãe, um plano que faça sentido para os dias seguintes. Sem julgamento. Sem impor um único caminho como sendo o único certo.
Quando vale a pena procurar ajuda
Se a dor se mantém do princípio ao fim da mamada, se aparecem fissuras ou sangue no mamilo, se surge febre com a mama vermelha e dolorosa, se o bebé molha poucas fraldas ou perde mais peso do que seria esperado: nenhum destes sinais deve ficar “à espera que passe sozinho”. Quanto mais cedo se procura apoio, mais fácil costuma ser resolver, e menos dor há pelo caminho.
- Perguntas frequentes
É normal doer nas primeiras semanas de amamentação?
Algum desconforto inicial é comum, mas dor intensa ou contínua não é normal e costuma indicar um problema de pega, que se corrige com apoio especializado.
Até quando devo amamentar?
A Organização Mundial da Saúde recomenda aleitamento materno exclusivo até aos 6 meses, com continuação até aos 2 anos ou mais, junto com a introdução alimentar. Mas cada percurso é único e deve respeitar as possibilidades e as escolhas de cada mãe.
Posso amamentar e dar biberão ao mesmo tempo?
Sim, é possível conciliar as duas coisas, com leite materno extraído ou fórmula, sobretudo com orientação sobre como introduzir o biberão sem prejudicar a amamentação, quando esse é o objetivo da mãe.
Não precisa de enfrentar isto sozinha.
Se está a ler isto, o mais importante que pode ouvir agora é isto: não está a falhar, e não precisa de decidir sozinha entre continuar a doer ou desistir.
Na Clínica Cuidar’t, em Paredes, a consulta de enfermagem de amamentação existe para acompanhar cada mãe onde ela está, com tempo, escuta e orientação prática, sem julgamento e sem receitas iguais para todas.
Clique aqui para agendar a sua sessão de avaliação
Enfermeira Mariana Nunes Pereira, especializada em Saúde Materna e Obstétrica na Clínica Cuidar’t, Paredes